Somos um povo de construtores civis da metáfora, de patos-bravos da figura de estilo - o que não tem mal nenhum
9:00 Quinta, 12 de Novembro de 2009
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As carinhosas irmãs vicentinas que me educaram até à quarta classe suportaram o meu ateísmo sem o mais pequeno queixume. E suportaram-me a mim com o mesmo silêncio, o que é ainda mais notável. O facto de não terem tentado sequer convencer-me a fazer ao menos o baptismo revela um respeito tão firme pela liberdade religiosa que chega a comover-me. Por outro lado, pode dar-se o caso de não terem querido oferecer um sacramento ao pecadorzinho pertinaz que, sem dúvida nenhuma, perceberam que estava ali a despontar. Também comove: senhoras que viviam em reclusão, com pouca experiência do mundo real, conseguiam mesmo assim topar um selvagem aos seis anos. Mas, mesmo não tendo desperdiçado proselitismo que lhes fazia falta para salvar almas mais merecedoras da salvação, ainda assim ensinaram-me canções religiosas. Esta semana, recordei uma que se chamava Os muros vão cair.
É interessante quando certos pormenores da biografia do cronista se adequam ao tema tratado na crónica, não é? Ficamos com a sensação de que o tempo passa pelo mundo e pelo cronista do mesmo modo, que deixa em ambos a mesma marca, e sobretudo que o mundo e o cronista têm a mesma importância, o que é especialmente agradável. (Para o cronista. Para o mundo, é relativamente desprestigiante.) Por isso, sempre que posso invento um facto biográfico que se relacione com os principais acontecimentos da semana. Desta vez, não precisei de fazê-lo. As freiras ensinaram-me mesmo a música político-religiosa Os muros vão cair, que falava de muros metafóricos em geral para falar do muro de Berlim em particular.
A esta distância, constato que as vicentinas tinham duplamente razão: dez anos depois, o muro de Berlim caiu mesmo, e 20 anos depois da queda as metáforas sobre muros continuam pujantes. Quando, na passada segunda-feira, se comemorou o aniversário da queda do muro, ficou claro que as metáforas com muros estão para o muro de Berlim como a pergunta "Queria, já não quer?" está para os clientes dos cafés que, por educação, fazem o pedido no pretérito imperfeito. A queda do muro é uma efeméride que, ano após ano, ouve sempre as mesmas piadas. Todos, mas mesmo todos os comentadores lembraram outros muros que, à semelhança do de Berlim, devemos derrubar. O muro da intolerância, o muro da injustiça ou o muro da desigualdade social foram alguns dos muros mais citados. E todos, mas mesmo todos, apontaram a seguir as pontes que devem ser construídas nas ruínas dos muros. A ponte da esperança e a ponte do entendimento entre os povos foram as duas infra-estruturas metafóricas mais referidas. Se juntarmos a estes muros e pontes as auto-estradas da informação, percebemos que as metáforas sobre obras-públicas são, sem dúvida nenhuma, as mais populares do espaço público português. Somos um povo de construtores civis da metáfora, de patos-bravos da figura de estilo - o que não tem mal nenhum. Estou só a observar um fenómeno sem o julgar. Por favor, não me enfiem no túnel da incompreensão.
Caro Ricardo,
Parabéns pelo seu artigo. Os muros isolam-nos... as pontes servem para transpor obstáculos.
Mas há muros que só nós podemos derrubar, aqueles que nos empenhámos em construir à nossa volta, para nos defender do mundo exterior... de realidades que teimamos em não ver, de sentimentos que temos medo de mostrar...
Sara
Também gostei deste artigo, está correctamente bem pensado; concordo principalmente, quando diz: - somos um povo de construtores civis da metáfora, de patos bravos da figura de estilo - o que não tem mal nenhum (aqui discordo, porque tem! há por aí muitos prédios feitos às três pancadas). Estou só a observar um fenómeno ( bem observado) sem o julgar.
Portanto já repararam que, o que está dentro dos parênteses são palavras minhas, ao que ainda acrescento: a dos patos bravos da construção civil assenta-lhes que nem gingas, mas quem compra as construções (desculpem o termo) lixa-se!!! paga e nunca se sabe quando é que os quatro muros de sua casa caem! eu também estou só a observar o fenómeno, quando as vistorias das respectivas câmaras, são pessoas, com óculos há presidente da junta (como dizia o outro), aí há realmente um fenómeno! mas eu também só estou a comentar, não estou a julgar ninguém!
Cumprimentos Ricardo, mande sempre, isto é que são piaaadas!!!
O Ricardo Araújo Pereira esqueceu de citar outros Muros como o
que os Sionistas estão a construir para isolar os palestinos que até rouba mais ainda,parte do seu território;o Muro que divide a Coreia em duas;o Muro que os ianques construiram na fronteira com o México.Êstes Muros não são como a célebre Muralha da China
que é uma atracção turística.E a respeito de metáforas,pois RAP focou de facto o Muro da desigualdades sociais;das injustiças;da
intolerância,mas para derrubar o Muro das injustiças e das desigualdades sociais,é necessário derrubar os que erguem êsses
Muros,e isso não é lá muito fácil porque a humana pulhice,não tem
limites,pois embora vivamos no Século XXI,continua a existir as
três classes sociais como no passado:-Clero,Nobreza e Povo,ainda
que mascarados de Modernismo liberal ou liberalizante.O Clero mais
ou menos adaptado ao Modernismo;a Nobreza que é constituída pelos Fidalgos Mercadores e Banqueiros da Sociedade Civil e da
Sociedade Militar; e o Povo de entre o qual a Fidalguia vai recrutar a Polícia para,formar um Muro metafórico a proteger o Clero e a Fidalguia das reivindicações do Povo,ainda que êste esteja,por sua vez dividido em três categorias sociais,ou sejam a Plebe que
constitui a sua maioria,a Pequena e a Média Burguesia.
E entre estas várias classes sociais existem Muros invisíveis mas
concrectos.Até na simples igreja da Aldeia ou na sumptuosa Catedral da Cidade,existem êsses Muros a separar os filhos de Deus.