Quando os especialistas em assuntos prioritários disseram que a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo não era prioritária, fui forçado a acreditar. Ao contrário da grande maioria dos intervenientes no fórum da TSF, não tenho uma personalidade especialmente talhada para a distinção entre as questões prioritárias e as outras. Procuro, por isso, aprender com quem facilmente destrinça o prioritário do preterível. Aprendi muito na altura em que se discutiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo e continuo a aprender agora, quando vejo alguns dos mesmos para quem esse assunto não era prioritário a discutirem a controversa questão da Red Bull Air Race. Há que ter sensibilidade para o que é prioritário: o País tem problemas mais urgentes do que a igualdade entre cidadãos, mas a crise pode esperar quando se discute uma competição em que aviões de corrida dão pinotes ao redor de obstáculos de plástico.
Debrucemo-nos então, sem remorso de estarmos a debater uma questão menor e comezinha, sobre a Red Bull Air Race. Ao que parece, os organizadores da corrida de aviões, que costumava realizar-se no Porto, desejam agora realizá-la em Lisboa. Como é evidente, sucedeu-se uma polémica que fez germinar uma pequena guerra civil. Os Estados Unidos dividiram-se em dois para lutar por causa da escravatura, Lisboa e Porto pelejam por causa de aviõezinhos acrobáticos. Cada um tem a secessão que merece.
Percebemos que o caso é sério quando Pacheco Pereira se indispõe. E Pacheco Pereira indispôs-se. À beira da apoplexia, aliás a mesma apoplexia pela qual costuma ser tomado quando se encarniça contra eventos como o Red Bull Air Race, encarniçou-se contra o fim do Red Bull Air Race. Os aviões vão deixar de fazer piruetas no Porto, e Pacheco Pereira não se conforma. Pacheco Pereira é portuense, e nada do que é portuense lhe é alheio. Mesmo que sejam aviões em cabriolas sobre o Douro. Manifestou-se solidário com todos os portuenses que ficaram órfãos dos aviõezinhos. Considerou absurdo - digo bem, absurdo - que a corrida abandonasse o Porto. E exigiu esclarecimentos junto do presidente da câmara de Lisboa, a quem a Red Bull pediu que passasse a acolher a corrida. A Red Bull, pelos vistos, desconhecia que não pode deslocalizar as cambalhotas aéreas que organiza sem esclarecer previamente o Pacheco Pereira. Fica o aviso para todas as outras marcas de refrigerantes que se atreverem a marcar eventos desportivos fora do Porto.