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Abstenho-me do combate à abstenção

A política trata os jovens por tu, mas não por razões de familiaridade: um cãozito ou um gato não são tratados com reverência, e a CNE parece prezar os jovens como uma pessoa preza um animal de estimação

9:08 Quinta feira, 17 de Set de 2009

Os vídeos da Comissão Nacional de Eleições que pretendem convencer os jovens a votar são muito eficazes. O mais interessante é que não são eficazes a combater a abstenção, mas a transmitir aquilo que a CNE acha que é um jovem. Antes de mais nada, há que recordar que, se as pessoas são o antigo povo, os jovens são a antiga canalha. A canalha foi promovida a jovens, o povo foi despromovido a pessoas. Os partidos, que eram afáveis com o povo, são cerimoniosos com as pessoas. Mesmo correndo o risco de parecer a minha avó, vejo-me forçado a começar a próxima frase com a expressão "no meu tempo". No meu tempo (cá está), todos os cartazes e pichagens de parede tratavam o povo por tu. Até o CDS pedia, muito coloquialmente, "Vota CDS". Agora, até o PCP trata as pessoas com cerimónia, e não arrisca mais do que um educado "Vote PCP". O povo era da família - logo, tratava-se por tu, como fazem as famílias, com excepção das que residem em Cascais. O povo é só um, toda a gente sabe quem é. As pessoas são muitas, e os partidos não podem aspirar a conhecê-las todas. Daí não terem à-vontade para tratá-las por tu.

Curiosamente, o mesmo não acontece com os chamados jovens. A política trata os jovens por tu, mas não por razões de familiaridade: um cãozito ou um gato não são tratados com reverência, e a CNE parece prezar os jovens como uma pessoa preza o seu animal de estimação: fazem umas habilidades giras, e às vezes parecem mesmo uma pessoa, mas continuam a ser um animal irracional. Os rapazes e raparigas que protagonizam os anúncios da CNE desempenham o papel de jovem na perfeição. Num dos vídeos, um jovem chega a uma boutique e, por não ter escolhido a roupa em tempo útil (aparentemente, no mundo deste jovem as pessoas têm um período específico para fazer a selecção da indumentária, passado o qual a escolha se torna irreversível), vê-se forçado a aceitar a escolha do alfaiate, que o obriga a trocar os andrajos que trazia por um fato e gravata. Ou seja, deixando o alfaiate escolher por ele, o miúdo ficou mais bem vestido. É possível que esta não seja a melhor forma de passar a mensagem "Não deixes que decidam por ti", o que me parece excelente. Pensando bem, a mensagem da CNE deteriora a democracia, na medida em que alerta as pessoas para o facto de os seus concidadãos não serem de fiar, e tomarem decisões que nos prejudicam. No entanto, o vídeo, na sua feliz incompetência, transmite a ideia contrária - que é, de facto, uma ideia admirável. Os partidos em que eu voto nunca ganharam uma eleição. Essa é, aliás, uma das razões pelas quais voto neles com tanto sossego. Significa isto que, mesmo tendo votado em todas as eleições, houve sempre alguém que decidiu por mim - o que é correctíssimo. Uma pessoa decidir o destino do país por nós, é ditadura; quando é a maioria que decide, isso chama-se democracia. Os outros sempre decidiram por mim, e ainda bem. Eu não quero carregar sozinho o fardo de decidir. Eu - e, sobretudo, Portugal - estamos muito melhor assim.

Palavras-chave   opinião   Ricardo Araújo Pereira
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12 comentários
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careta
mortalha (seguir utilizador), 1 ponto , 14:28 | Quinta feira, 17 de Set de 2009
ya dread! tipo... tou a ver!

tasssseeeeeeee bemmmmmmmmmmm!

tipo.. faz esse!
Favorecimentos humoristicos
navegador (seguir utilizador), 1 ponto , 14:52 | Quinta feira, 17 de Set de 2009
Fazer humor tem multiplas vertentes. Importa dizer aqui que nem sempre tem a isenção que se espera. Os Gatos Fedorentos - Esmiuça os sufragios"- tem uma vertente muito aguçada contra Ferreira Leite. Parece que a missão não é bem fazer humor, mas ridicularizar especialmente, com nuances persistentes e com alfinetadas ao BE e CDU. Isto além de participar na dita "onda de bipolarização", tal como a revista "Visão".
"Jamais" - á distrução da realidade, nem ao Freeport das banalidades...
É bem verdade que o "sistema do poder instituido", tem os seus tentaculos, por cada canto de Portugal.
Reconheço que tenho apreciado muitos dos comentários da "Boca do Inferno", mas a tendência eleitoralista de apoiar "O Polvo", é uma forma de favorecimento indirecto pouco saudavel para quem se deseja humoristicamente livre. É bom que não se caia no "Humor de sarjeta", como diz um ministro dos" assuntos para lamentar"
Todos partidos partem do zero eleitoral para as votações, mas até no humor uns são mais que outros e nem merecem ser retratados com humor... São as convicções e os favores dos instrumentalizadores profissionais.
A seu tempo veremos que a razão é serena e que mais cedo ou mais tarde os ultimos a rir, riem melhor e com rigor.
Aproveitem as audiencias ... mesmo com favorecimentos humoristicos ou não... porque o desmprego continua a subir,enquanto vamos dizendo umas graçolas ... com sabor a situacionismo primário...
Bem hajam

    Re: Favorecimentos humoristicos   
ZeValente (seguir utilizador), 1 ponto , 16:54 | Quinta feira, 17 de Set de 2009
    Re: Favorecimentos humoristicos II   
navegador (seguir utilizador), 1 ponto , 23:05 | Quinta feira, 17 de Set de 2009
    Re: Favorecimentos humoristicos   
JosePovinho (seguir utilizador), 1 ponto , 16:03 | Sexta feira, 18 de Set de 2009
    Re: Favorecimentos humoristicos   
Gasosa (seguir utilizador), 1 ponto , 15:49 | Sexta feira, 18 de Set de 2009
    Re: Favorecimentos humoristicos III   
navegador (seguir utilizador), 1 ponto , 0:42 | Sábado, 19 de Set de 2009
    Re: Favorecimentos humoristicos III   
ZeValente (seguir utilizador), 1 ponto , 16:10 | Terça feira, 22 de Set de 2009
MUITO BOM
ONDA VERDE (seguir utilizador), 1 ponto , 9:43 | Sexta feira, 18 de Set de 2009
Só faltou abordar que andam sempre a chatear os cidadãos para não se absterem e os candidatos firmes na convicção de saberem de tudo, em tempo de eleições que na assembleia Abstêm-se de vez em quando com o nim.
Quem não se poderia abster deviam de ser os Srs. Deputados e os Partidos??
Façam um esforço e abstenham-se com o voto em branco para forçar a renovação dos partidos e dos políticos “carunchosos”.
A ultima parte deste comentário alude bem às consequências da Abstenção!!
  “Não deixa de ser engraçado o Pinto Balsemão, o Mexia, e Sir virgin e em especial o engraçado ex-ministro dos chifres a participarem neste embuste.
É mesmo para uma barrigada de riso."
O Ricardo falhou.
Pai Louco (seguir utilizador), 1 ponto , 10:46 | Quarta feira, 23 de Set de 2009
Peço perdão pela crítica mas o Ricardo em vez de levar 2ª figuras dos partidos deviam ter convocado os chefes das juventudes partidárias.
Realmente...
Gasosa (seguir utilizador), 0 pontos (Despropositado), 15:43 | Sexta feira, 18 de Set de 2009
Realmente já vi comerciais mais interessantes, quiçá tempos de antena menos idiotas.
O comercial não tem ponta por onde se lhe pegue, além das ideias que o RAP explorou, não podemos esquecer que nem todos os jovens se resumem àquele esterótipo: roupas largas, desleixadas, fones nos ouvidos.
Claro que a ideia principal que passa não é a desejada, mas sim: olha, se eu deixar que os outros escolham fico melhor vestidinho, entenda-se, melhor governado.

Adorei esta crítica, sabe sempre captar com inteligência coisas simples que por vezes escapam a todos.
12 comentários
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