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Aqueles que andam por aí

Os nossos brinquedos foram uma coisa importantíssima para o meu pai. Confiscava-nos alguns para seu gozo pessoal, secreto. A gravidade apaixonada com que ele jogava. Tenho os postais que o meu avô lhe mandava da guerra em França, derramados de ternura para um garotinho de dois anos

As pessoas não morrem: andam por aí. Quantas vezes as sinto à minha volta, não apenas a presença, o cheiro, a cumplicidade silenciosa, palavras que saem da minha boca e me não pertencem, penso

- Não fui eu quem disse isto

e realmente não fui eu quem disse isto, foram as pessoas mortas, exprimem opiniões diferentes das minhas, aproximam-se, afastam-se, vão-se embora, regressam, não me abandonam nunca. Em que parte da casa moram, qual o lugar onde dormem, devíamos deixar pratos a mais na mesa, talheres, copos, almoço que chegasse, os guardanapos nas argolas, um lugar no sofá, metade do jornal, dado que não se sumiram: andam por aí, invisíveis

(invisíveis?)

densas de humanidade, tão próximas. Umas alturas muitas, outras uma ou duas apenas por terem que fazer noutro lado, no caso de saírem não vale a pena preocuparmo-nos: têm a chave e a prova que têm a chave está em que entram, silenciosas, amigas, penduram os casacos no bengaleiro, sorriem. Onde se encontra o pai? Na cadeira do costume. Onde se encontra a avó? Lá fora, no quintal, a alinhar a roupa no frio, ou a fazer festas à cadela com a mão leve de sempre. Os cemitérios são lugares vazios, só árvores, sem defuntos, só a gente, que arranjamos as campas, sem entendermos que não existe ninguém lá em baixo. Para quê visitar ausências? Uns pardais nos choupos, nada. Que sítios tranquilos, os cemitérios, que inútil a palavra defunto. Segredam-nos

- Não faleci, sabes?

e não faleceram, é verdade, continuam, não na nossa lembrança, continuam de facto, pertinho. Quase sem ruído mas, tomando atenção, percebem-se, quase não ocupando espaço mas, reparando melhor, ali, iguais a nós, tão vivos. Andam por aí, pertencem-nos, pertencemos-lhes, não deixámos de estar juntos. Nunca deixámos de estar juntos: Quando é necessário poisam-nos a palma no ombro. Na época em que andei muito doente houve sempre palmas no meu ombro, a ajudarem. E agora, na mesa a escrever isto, espreitam o papel, sabem, melhor do que eu, as palavras que se seguem. O meu avô

- Não te aborrece escrever?

ele, a quem nunca vi ler um livro, instalava-se diante dos canteiros, em silêncio, a olhar as árvores, suponho que a olhar o Brasil da sua infância. Avôzinho. Tão diferente de mim: muito moreno, de cabelo encaracolado, lindo. Continua por aí, não deixe de continuar por aí. Um amigo meu, que disse a missa de corpo presente da mãe, contou-me que, ao voltar a casa semanas depois, a primeira pergunta que fez foi

- A mãe?

seguro de a achar num compartimento qualquer. E, de certeza

(isto já não me contou)

que deu com ela. Que dá com ela a cada passo. Nem é preciso interrogar seja quem for, a mãe encarrega-se de resolver o problema, haverá algum problema que uma mãe não resolva? Não é infantilidade da minha parte afirmar isto: é assim. Frase da minha, ontem

- A gente tem que se divertir ao divertir as crianças, porque se a gente não se divertir elas não se divertem

e eu de boca aberta. É que não há coisa mais séria que o divertimento. Os nossos brinquedos foram uma coisa importantíssima para o meu pai. Confiscava-nos alguns para seu gozo pessoal, secreto. A gravidade apaixonada com que ele jogava. Tenho os postais que o meu avô lhe mandava da guerra em França, derramados de ternura para um garotinho de dois anos. O paizinho gostava que o Janjão, etc. Andam os dois por aí agora, o Janjão e o paizinho. E, se calhar, o Janjão continua a receber postais. E de certeza que o Janjão continua a receber postais. É verdade não é, senhor, que continua a receber postais? Mesmo de bata, no hospital, mesmo professor, mesmo importante? Postais. Há quanto tempo não recebo postais. Uma carta de vez em quando, papelada da agência, das editoras, dos tradutores mas postais, postais-postais, népia. E aqueles que andam por aí, sei lá porquê, não me mandam nenhum. Ou mandam-se a si mesmas e acham que chega. E, em certo sentido, chega. Mas umas palavrinhas, num cartão, caíam bem, há alturas em que umas palavrinhas num cartão caem bem. Não sei porquê mas caem bem. Não faço nenhum livro agora, ando vazio, e o vazio começa a inquietar-me. E se isto acabou? Terei secado? Apareceu-me uma coisa mas não dava, de maneira que fiquei sem nada. As falsas partidas, os equívocos, pensar que se consegue e não se consegue. O que julgarão desta impotência aqueles que andam por aí? Não lhes falo nisso, claro, é o género de assuntos que guardo para mim, guardo quase tudo para mim. A casa frente ao mar que nunca tive, por exemplo, tenho prédios feios. Algumas árvores e prédios feios. Que silêncio. A minha filha, no computador, entretem-se com o que chama um jogo de estratégia, em lugar de se sentar no meu colo. Olho para o écran e não percebo raspas, deve ser uma estratégia complicadíssima. Afirma que está a construir coisas. Ao menos que haja alguém ao pé de mim a construir seja o que for, compenetrada, solene. Se olhar bem o seu ombro vejo a palma que poisou nela. Há palmas tão bonitas quanto os pássaros. Daqui a nada, sem que ela dê por isso, começa a cantar. Basta um bocadinho de atenção para a ouvir cantar. E, ao cantar, começo a escutar as ondas. Uma após outra. Para mim. Atrás destas janelas e destas árvores há-de haver uma praia. Reparem.

António Lobo Antunes
8:30 Quinta, 26 de Janeiro de 2012

Domingo com Verdi

"Vão fechando coisas por aqui. O minimercado, por exemplo. Lojas. O maluco usa barbas, farrapos. Continua feliz. Mais do que o senhor que andou na guerra em África e, de vez em quando, dá pontapés nos caixotes, terrível de ordens militares"

Domingo é o dia mais difícil da semana: ruas sem ninguém, persianas descidas, quase nenhum automóvel, em que sítio andarão as pessoas? Horas lentas, pesadas, esta casa ao mesmo tempo igual e diferente, a dizer-me qualquer coisa que não entendo. O que será? Uma espécie de sol na varanda, até à mesa, um brilhozito na jarra. O maluco do costume não dança no passeio a gritar

- Sou feliz

a estrangeira sem abrigo não passeia nos semáforos o saco de plástico, a estender a mão para carros indiferentes. Parece que só eu no bairro. De certeza que só eu no bairro. Amanhã a agência de viagens aberta de novo, a farmácia, o restaurante que perdeu quase todos os clientes, com o dono à porta, vencido. Tem mais rugas dos lados da boca, dos lados dos olhos. Para além do restaurante uma mercearia, um sítio onde fazem tatuagens, uma sucursal de banco. Até há pouco havia duas, uma delas fechou. Vão fechando coisas por aqui. O minimercado, por exemplo. Lojas. O maluco usa barbas, farrapos. Continua feliz. Mais do que o senhor que andou na guerra em África e, de vez em quando, dá pontapés nos caixotes, terrível de ordens militares. Mete uns copos ao bucho e voltam-lhe os tiros.

- Quatro mortos em cinco minutos, seus cabrões

afiança ele

- Quatro mortos em cinco minutos

e a gente calados. O sujeito do estabelecimento de telemóveis encolhe os ombros, uma velhota assusta-se em pulitos de galinha, passa de largo, aflita. Tirando a velhota ninguém liga ao guerreiro. O senhor que andou na guerra em África faz continências, amansa, some-se numa esquina. Daqui a nada regressa, mais feroz ainda. Há um outro que me mostra análises

- Que tal o meu fígado?

tiradas de um envelope usado

- O médico mandou-me ir lá daqui a três meses

e a mão treme-lhe enquanto vejo, de esguelha, os papéis. Explica

- Eu o fígado e a minha esposa os nervos

apontando uma criatura de expressão sofrida que já não sabe o que é dormir

- Há mais de sei lá quanto tempo que não descanso

esclarece a esposa numa vozita murcha

- Há mais de sei lá quanto tempo, senhor doutor

lembrada de que fui doutor.

- Nem o chá de tília me vale, palavra de honra.

Tília, lucialima, camomila, já bebeu a ervanária inteira. O filho polícia, a filha e o genro desempregados, três netos. E inicia, com a vozita murcha, uma digressão longuíssima acerca da miséria do subsídio de desemprego. No final da digressão levanta o queixo até mim

- E quando o subsídio acabar?

enquanto o marido concorda, a guardar o fígado no envelope.

- Não entendo estes exames

conta-me ele, antigamente era com cruzes, percebia-se.

- Mais de três cruzes e encomendava-se o caixão.

- Hoje, domingo, devem trancar-se no seu primeiro andar, com o peso do fígado e dos nervos às costas e um bulezito de menta entre eles, fitando-se:

- E se chamássemos a ambulância?

com a filha e o genro desempregado, de lápis em riste, à cata de anúncios, nem que seja de limpezas

- Os dois com estudos, senhor doutor, já viu?

no jornal. Comem o quê? E a miséria escondida: ele de gravata, ela de cabelo pintado. A esposa dos nervos orgulhosa

- Asseadíssimos

e não só asseadíssimos, pinocas, a infelicidade não é para mostrar. Na cave do prédio em que habitam um velhote magrinho que tocava clarinete na banda da Guarda

(clarinete ou flauta)

e elogia Verdi

- Um grande compositor

pela  boca quase sem mobília. Sobra um dente espetado que garante

- Só de pensar em Verdi arrepio-me todo

com um hálito a vinho que me faz tremer os joelhos. A mulher dele apanha um estalo de vez em quando, sem motivo, ou antes, conforme ele me elucida

- Por causa das coisas

minúscula, sofrida. Engomava para fora, abafava uma tosse complicada na palma, não refilava. Há semanas o artista deu com o clarinete ou a flauta no toutiço da criatura e o instrumento entupiu-se, facto que não lhe perdoa

- Enquanto não me deu cabo da música não descansou

dado que, de vez em quando, ainda soprava uns compassos. Pede-me a opinião, exibindo o tubo

- Acha que se eu lhe bater ao contrário isto se compõe?

Não tenho a certeza da resposta mas pode ser mas pode ser que sim: um Verdi para a esquerda entorta, um Verdi para a direita corrige.

- É capaz

opino eu, e ela a proteger-se com o braço. Domingo: ruas sem ninguém, persianas descidas, uma espécie de sol na varanda, até à mesa, um brilhozito na jarra. O maluco do costume

- Sou feliz

ausente, o senhor da guerra em África sem fazer continências. Deixo de escrever, aguço o ouvido: uma pancada para a direita primeiro e, a seguir, o grande Verdi a arrepiar-me todo.

António Lobo Antunes
8:56 Quinta, 12 de Janeiro de 2012

O Sentido da Vida

"Apetecia-lhe que alguém lhe falasse. Tivera uma mulher em tempos. Recordava-se dos suspiros dela, dos dedos magros a moverem as coisas. Uma tarde não a encontrou. Deixou um vestido no cabide, um vestido antigo, com pintinhas. Um cabelo no esmalte do lavatório. Um gancho na mesa"

Costumava ir ao cemitério visitar a minha mãe mas, por não ter a certeza de qual era a campa, dado não existirem lápides naquele talhão, apenas números na ponta de hastes de ferro, sentava-se por ali, numa saliência a jeito, e ficava a olhar a terra e as árvores ou um dos cachorros que, de quando em quando, passavam por ele, a murmurarem, seguindo um fio de cheiro lá deles. Ao longe oliveiras e, mais longe, depois de um murozito, uma ou outra ruína antes do mar. A mãe devia estar por perto, muito calada, sob um dos tufos de ervas ou, se calhar, era agora um tufo de ervas que às vezes suspirava com o auxílio do vento. Aos setenta anos tanto lhe fazia, mas sentia-se quase eterno a imaginar que a escutava. Trazia uma garrafa no bolso da gabardine, destinada a acompanhá-lo se por acaso uma névoa de desconforto lhe arrepiasse o estômago. Não chegava a beber porque as ervas não pronunciavam o seu nome. À esquerda oliveiras em lugar de choupos, um ou dois corvos junto às vacas numa encosta. As vacas não pastavam, quietas desde ele pequeno, desde há séculos, as mesmas da sua infância, de pestanas brancas, com os tendões do pescoço a baloiçarem. A mãe costumava dar-lhe café quando a visitava. Tinha o retrato de um homem de barba em cima de um caixote, amparado a uma boneca a que faltava um dos braços.

- O meu avô e a Matilde

dizia a mãe ao olhá-los

- O meu avô e a Matilde

isto enquanto aquecia o café, com o sol no freixo das traseiras e, nos intervalos da voz da mãe, um imenso silêncio no interior do qual, por vezes, latejava uma rã, nos charcos do outono, a inchar e a desinchar a garganta. Nunca havia de esquecer o cheiro da roupa da mãe e uma mala aberta, com talheres e panelas, a um canto. Ou a orla de espuma castanha no café preto. As ervas do cemitério não mencionavam o avô nem a Matilde, limitavam-se a sussurrar murmúrios sem nexo. Contou vinte e sete números em vinte e sete hastes de ferro, vinte e sete defuntos a acompanharem-no. Se não os contasse julgaria que mais de mil, porque a tábua do seu peito lhe parecia oprimida por uma multidão de criaturas.

- Quantos somos?

perguntava-se ele

- Quantos somos ao certo?

e a pergunta flutuava em torno até se dissolver devagarinho e esquecê-la. Em certas ocasiões vinha-lhe a recordação do pai, na sua cadeira de pranchas de barrica, com o tubo do cachimbo reforçado a adesivo. Não o pai de dia, o pai à noite, observando, pela porta aberta, as duas ou três luzinhas do escuro, que deviam pertencer aos candeeiros da estrada. Talvez às folhas das piteiras sob a lua. Talvez a almas vagabundas em busca de sossego. Perguntou, a tocar na garrafa

- Acha que são almas, mãe?

e a sua própria voz tranquilizou-o, ainda que se lhe afigurasse esquisito continuar vivo. Podia ter falecido quando caiu do tractor. Podia ter falecido com a febre de há dois anos. Se tivesse falecido era à beira da sua campa que estaria agora. Quer dizer, à beira de um número, dele ou de outro. Uma das vacas avançou três passos. A mãe, ao entregar-lhe o café

- Bebe enquanto está quente

e em que sítio parariam agora o retrato do avô e a Matilde? Não herdara as feições do avô, não herdara as feições do pai. A mãe espantava-se

- A quem sais tu?

a verificar-lhe o nariz, a boca, o queixo. Apetecia-lhe que alguém lhe falasse. Tivera uma mulher em tempos. Recordava-se dos suspiros dela, dos dedos magros a moverem as coisas. Uma tarde não a encontrou. Deixou um vestido no cabide, um vestido antigo, com pintinhas. Um cabelo no esmalte do lavatório. Um gancho na mesa. Um dos cachorros do cemitério parou a fixá-lo. Fixou-o de volta com a certeza de não ter pele, de ser, ele mesmo, o cemitério inteiro, as oliveiras, o mar. Uma guinadazita de vento transportou-o para norte, roçando na terra, nas pedras. Uma guinadazita de vento articulou

- Mãe

uma espécie de paz vestiu-o inteiro, uma espécie de paz sem relação com a mãe, sem relação com nada e, no interior da paz, um hálito ténue que cantava. Não compreendia a cantiga mas sabia que vinha de regiões confusas, de uma casa que conhecia e perdera e na qual nunca entrara. Ficava na rua a espreitar uma varanda sem ninguém, um tremor lento de cortinas. Talvez lhe acenassem das cortinas, não estava certo. Devagarinho a cantiga foi-se tornando mais forte até tomar conta dele, erguendo-o como uma semente sem peso. Ainda deu pelo cachorro, agora minúsculo, lá em baixo, ainda deu pelos números do cemitério, ainda deu pela mãe

- O meu avô e a Matilde

e o braço que faltava à Matilde entristeceu-o. Isto é, não bem tristeza, uma coisa parda que se desvanecia e, ao desvanecer-se, ainda deu pelo indicador e o polegar da enfermeira do hospital que lhe fechavam as pálpebras. O freixo das traseiras continuava cheio de sol.

António Lobo Antunes
8:14 Quinta, 22 de Dezembro de 2011

A Chamada

"Não vais lá com juras, promessas, arrependimentos, não vais lá com diminutivos, não me peças colo, não armes ao pingarelho a pedir colo, fala-lhe ao coração que a gaja amolece e no caso não amolece nem meia, nem é questão de amolecer, aliás, amolecer o quê, acreditei enquanto resolvi acreditar e acabou-se"

Liga-me daqui a vinte minutos que agora não posso falar. Não é o meu marido que ainda não chegou a casa, não são as crianças que estão lá dentro com o computador e a porta do quarto fechada, não é ninguém, estou sozinha mas não consigo falar. Não, não tem a ver contigo, porque carga de água teria a ver contigo, tem a ver comigo apenas, coisas que se passam entre eu e mim e não me apetece explicar, aliás se explicasse não entendias, o que sabem vocês das mulheres, do que se passa numa mulher, do que uma mulher pensa, do que uma mulher sente, acham que somos malucas, acham que somos diferentes, acham que somos parvas, liga-me daqui a vinte minutos, se quiseres, se te der na bolha, se te apetecer e talvez eu consiga ou talvez não consiga, sei lá, sei que agora não posso falar, a única certeza que tenho é que agora não posso falar. A ti nunca te aconteceu não poderes falar, claro, podes sempre, vocês podem sempre, vivem da boca para fora, impingem sentimentos como quem impinge electrodomésticos, exigem que a gente os compre pelo vosso preço e, francamente, o vosso preço, neste caso o teu preço, não me interessa um fósforo, experimenta dentro de vinte minutos e talvez eu torne a ser parva e te oiça e acredite em ti e compre como tenho comprado até hoje, põe a mão na consciência e repara como tenho comprado até hoje mas neste momento nem sonhes, não posso, não me apetece, não quero, deixa-me sossegada um bocadinho, não me venhas com histórias que não engulo nenhuma, preciso de pensar, de tentar entender, de tentar entender-me, não insistas que me incomoda insistires, não te tornes aborrecido, não te tornes peganhento, vou cortar a chamada, não posso falar e, se pudesse falar, não respondia o que querias, não dizia o que te apetece que eu diga, o que ordenas, sem ordenar, que eu diga, a tua maneira de dares a voltinha às coisas, de me levar à certa, de me fazeres prometer o que jurei a mim mesma não prometer, não posso falar e é tudo, sinto-me tão vulnerável, tão frágil, não me obrigues a abrir a boca, a chamar-te querido, a chamar-te amor e a ser sincera ao chamar-te querido, ao chamar-te amor, não tenho ganas de ser sincera nem de acreditar em ti nem de esquecer tudo o resto, eu querido, eu amor e tu a rires-te por dentro visto que vocês se riem sempre por dentro, vocês para os amigos

- Claro que a gaja engoliu

vocês para os amigos

- A gaja engole sempre

e acontece que a gaja não engole agora, a gaja recusa engolir agora, acontece que a estúpida da gaja percebe tudo agora, vai à fava, larga-me da mão e vai à fava, acaba com a vozinha quente, acaba com os argumentos idiotas que a gaja não está no papo, está muito longe de estar no papo, os teus amigos

- O que sucedeu à tua palheta?

e sucedeu que a tua palheta já não vale um chavo, não vais lá com palheta, não vais lá com juras, promessas, arrependimentos, não vais lá com diminutivos, não me peças colo, não armes ao pingarelho a pedir colo, fala-lhe ao coração que a gaja amolece e no caso não amolece nem meia, nem é questão de amolecer, aliás, amolecer o quê, acreditei enquanto resolvi acreditar e acabou-se, não acredito mais, não faças partes gagas, não mintas, olha, para usar os vossos termos vai à merda, não ligues daqui a vinte minutos sequer, não ligues mais, se ligares não atendo, se te pendurares da campainha da porta não abro, se falares com o meu irmão

- Eh pá põe-na mansa

mando-o às malvas num rufo, aguenta como um homenzinho e cala-te, que é feito da tua autoridade, que é feito do teu orgulho, não rastejes que me fazes dó, aguenta-te nas canetas, cresce, se aos quarenta anos não cresceste quando é que vais crescer, não cresces, continuas uma criança, vocês todos hão-de ser sempre crianças, não aprendem, estou farta, filhos já eu tenho que cheguem, maridos, fora este, dois iguais a ti que não me interessa onde param, raios vos partam a todos, não dou mais dinheiro a ganhar a psiquiatras, não vou andar por aí a tropeçar nas coisas derivado aos calmantes, apetece-me paz, entendes, sossego, entendes, nem sonhes em pendurares-te em mim, tentares enganar-me, meteres-me no bolso, não metes, já meteste, não metes, não necessito de botija de água quente à noite, não necessito de companhia para jantar fora, não necessito de entrar de braço dado seja onde for, não necessito da tua escova de dentes no copo do lavatório nem que me consertes seja o que for em casa, a gaja não engole sempre, a gaja não engoliu, a gaja nunca mais vai engolir, pelo menos de ti a gaja nunca mais vai engolir, vou desligar isto e deixá-lo no silêncio e, por favor, não me inundes de mensagens, não me inundes de recados, não me faças esperas, não argumentes, não teimes, some-te, que alívio ver-te pelas costas, ouvir falar de ti como de um estranho, nem fazer ideia onde moras, espero que longe e daí tanto me faz, quero lá saber se longe ou perto, não te desejo que sejas feliz, como poderias ser feliz, és parvo, ouviste bem, és parvo, enfia isto na tua cabeça, és parvo de nascença e adeuzinho que agora não posso falar, ainda por cima com o meu marido a meter a chave à porta, aprende a respeitar as senhoras casadas, não lhes cries situações que as embaraçam, some-te, se desejares, mas só se desejares muito, muito mesmo, do coração, encontras-me amanhã no escritório a partir das dez horas.

António Lobo Antunes
8:07 Quarta, 7 de Dezembro de 2011

O almoço

Palavra de honra que não estava nada à espera quando hoje entrou no restaurante depois de mim, um pouco gordo, um pouco marreco, de cabeça talvez um bocadinho grande demais para o corpo e, apesar de haver duas ou três mesas sem ninguém, aproximou-se da minha

Palavra de honra que não estava nada à espera. Primeiro porque aos cinquenta e dois anos não se espera grande coisa, a não ser o médico a informar que um dos rins não está bem, e segundo porque em tantos meses a almoçarmos no mesmo restaurante, cada qual na sua mesa, eu com uma revista e ele com o jornal, nunca dei por qualquer soslaio, qualquer atenção, qualquer interesse da sua parte. Às vezes subia das páginas por causa de uma rapariga, que podia ser minha filha, a comer uma sopa ao balcão, passava-lhe uma luz nos óculos, a luz apagava-se, enfiava o queixo nas notícias, se calhar a aceitar, conformado

- Podia ser minha filha

pedia a conta antes de mim numa lentidão vencida, não deixava gorjeta que os tempos não estão para generosidades, ia-se embora um pouco gordo, um pouco marreco, de cabeça talvez um bocadinho grande demais para o corpo, via-o lá fora a acender um cigarro, a ingressar na bicha do multibanco, a meter um papelinho na carteira, a sumir-se por fim, lento, pausado, cuidadoso com os semáforos, e perdia-o até ao dia seguinte, em que uma alheira e o diário, ou uma corvina e o diário, ou meia de lulas e o diário, ou um clarãozinho nas dioptrias a propósito de uma sopa e uma rapariga que podia ser nossa filha. Portanto palavra de honra que não estava nada à espera quando hoje entrou no restaurante depois de mim, um pouco gordo, um pouco marreco, de cabeça talvez um bocadinho grande demais para o corpo e, apesar de haver duas ou três mesas sem ninguém, aproximou-se da minha e perguntou-me, numa voz que não ligava com a boca, se me importava que se sentasse à minha frente. De início nem percebi bem. Consegui um

  - Perdão?

atrapalhado, a impedir, no último momento, o copo de água de se entornar porque um dos meus cotovelos, ou uma das minhas mãos, ou a minha revista o tombavam, ele insistiu, na tal voz que não ligava com a boca e eu imaginava cheia, redonda, suave, em lugar de mole, aguda, raspante

(mas isso são pormenores, o que interessa é a personalidade e o carácter)

- Não se importa que me instale aqui?

de maneira que eu

- Ora essa

a puxar o rectângulo de papel do prato, dos talheres, do guardanapo, de maneira a abrir espaço para o rectângulo dele, repetindo sem dar fé

- Ora essa, ora essa

de súbito consciente que mal penteada, mal pintada, mal vestida, sapatos rasos, meias cor de carne, pior que meias, collants, soutien cor de carne igualmente, um anelzeco de pacotilha, um colar sem relação com a blusa, brincos minúsculos, a pulseira idiota que uma sobrinha me impingiu, dois terços de baton já no guardanapo, os dentes, a necessitarem de ser limpos, teimando

- Ora essa, ora essa

enquanto ele estudava a ementa, longíssimo de mim embora ali, enquanto ele para o empregado, de indicador no ar

- Chocos

quase de costas, com botões de punho que eram bolas de futebol doiradas, se outro homem as usasse horríveis e na sua camisa quase aceitáveis, na sua camisa perfeitamente aceitáveis, ao voltar-se

- Aprecia chocos?

eu, que detesto chocos, aquelas pernas, aquela tinta, um sorriso encantado

- Se forem bem cozinhados

a imaginar-me ao fogão a prepará-los, transtornada, só de pensar em tocar naquilo estremeço, chocos e mioleira estremecem-me, rezei para que não prosseguisse o interrogatório alimentar e Deus, na sua infinita bondade, atendeu-me, obrigada, passou dos chocos para a actividade profissional

- Sou angariador de seguros

e que alívio angariador de seguros, para além de uma alma de filósofo na cabeça talvez um bocadinho

(um bocadinho perfeitamente suportável)

grande demais para o corpo

- Por desgraça não somos eternos

e ora aí está uma verdade do tamanho do Himalaia, não somos eternos, o meu pai, por exemplo, com enfisema, sem sair da poltrona, a minha mãe a girar a torneira do oxigénio e a meter-lhe um tubo no nariz

- Respira isso um bocadinho

com o meu pai continuando roxo, ele, enquanto os chocos não vinham

- Nunca pensou numa apólice de doença?

ele, enquanto os chocos não vinham

- A partir dos cinquenta, e falo por mim, não será má ideia tomar alguns cuidados

acompanhado de uma apólice, uma caneta, um bloco e a voz, que não ligava com a boca, não mole, aguda e raspante conforme eu julgava, um latido sinistro

- A senhora beira os sessenta, não?

de modo que antes de escutá-lo a acrescentar

- Eu, se fosse você, andava a pau com a saúde

reparei melhor nas bolas de futebol dos botões de punho, achei-as não quase aceitáveis, não perfeitamente aceitáveis, um pavor, como o achei um gordo disforme, um corcunda atroz, um cabeçudo de feira, troquei-o pela revista, não lhe escutei o

- Até breve, espero

e pedi uma mousse de chocolate a fim de diluir o gosto tenebroso, não bem a chocos, a cinquenta e dois anos sem esperança, que, estou para adivinhar porqu"ê, demorou a tarde inteira até me sair da boca.

António Lobo Antunes
6:24 Quarta, 23 de Novembro de 2011

O vivo e puro amor de que sou feito

"Nem sequer aprendi a tomar conta de mim. Desenho vogais e consoantes e demoro séculos a achar as letras certas. O que será morrer, morrer mesmo? O meu primo já sabe mas não me vai contar. Um dia aprenderei sozinho. Vi o meu pai, apenas perfil, na cama do hospital. Apenas perfil, garanto. O meu pai"

O meu primo morreu com uma coragem exemplar. Fui à igreja numa tarde de muito calor e muito sol. Bebi uma água num cafezito e desci para a capela. Algumas árvores grandes. Outro defunto na capela ao lado. Eu não pensava em nada, nem sequer nele. Vazio apenas, como antes de começar um livro. Desce-se uma dúzia de degraus e encontram-se caixões, algumas flores, algumas pessoas sentadas, outras a fumarem à entrada. A mim tudo me pareceu esquisito. Caras conhecidas, caras desconhecidas. Até que ponto conheço as caras conhecidas? Desconversei um bocado, com a boca a falar sozinha porque eu em silêncio. Cada vez emito menos sons, se calhar aproximo-me do fim das pilhas: qualquer dia imobilizo-me a meio de um passo, a meio de um gesto, numa rua qualquer ou numa passadeira de peões, com os automóveis a buzinarem. Suponho que alguém há-de sair de um dos automóveis e colocar-me na berma do passeio. Então fico para ali, igual à mobília quebrada que a camioneta da Câmara levará à noite. Para onde? Sujeitos de luvas a entornarem-me no lixo.

O meu primo dizia que gostava de mim. Passei anos a escrever no atelier dele. Ia numa frase e ele a fazer-me festas no pescoço

- É bom tê-lo aqui

sem que eu entendesse o motivo dado que não tinha espaço para conversas e levava o tempo às voltas com os papéis. Invernos frios como o caneco, de manta nos joelhos. Punha-me um aquecedor perto, que tresandava a gás. E um candeeiro que, volta não volta, pifava. Em certas ocasiões, de tão cansado, adormecia sobre as páginas. Quase a dormir as palavras saíam melhor. O fogão, o candeeiro e um contentor a jeito, a fim de rasgar lá para dentro os parágrafos inúteis e as resenhas de jornal que me trazia quando a editora publicava um trabalho. Acontecia-me, acontece-me passar um olho vago numa ou noutra. Ainda não aprenderam a ler-me: tentam abrir a porta com a chave que trazem no bolso, pequenina, estreita. E surpreende-me que não vejam que basta empurrar a maçaneta com um dedo. O sorriso da mulher do meu primo, tão corajosa quanto ele. Nenhum vento. Regressar a casa esmagado pelo excesso de luz. A urna fechada, com um pano em cima. Uma folha para as assinaturas. Assinei na folha o nome de quem já não pode assinar sozinho, mas pode assinar com os meus dedos. Toquei no peito de um homem que mora junto ao atelier. Grande, de uma inocência de criança, cheio de bondade. Ao espalmar-lhe a palma na camisola espalmou a dele sobre a minha. Não apenas cheio de bondade: puro de coração. Disse que toquei no peito de um homem que mora perto do atelier. Tão homem que não tem medo de ser mulher. Eu cá me entendo. E, depois, vim para casa fazer isto. Na mesa do costume, na qual aguardo o próximo livro. Começo dia 28 de novembro. Uma data completamente arbitrária a fim de obrigar-me a começar. Espreito à roda, tudo o que há neste apartamento foi o meu primo que escolheu: não tenho tempo, nem paciência, nem gosto, não faço a menor ideia de como se ocupam espaços. Não faço a menor ideia de quase nada, sou burro. Não estou a brincar, é a sério. Nem sequer aprendi a tomar conta de mim. Desenho vogais e consoantes e demoro séculos a achar as letras certas. O que será morrer, morrer mesmo? O meu primo já sabe mas não me vai contar. Um dia aprenderei sozinho. Vi o meu pai, apenas perfil, na cama do hospital. Apenas perfil, garanto. O meu pai. E a minha cabeça, de repente, cheia. Sentimentos, imagens, perguntas que diluíam os sentimentos e as imagens, um turbilhão de perguntas. No quarto da clínica um dos meus irmãos começou a chorar.

Tão esquisito tudo, tão estranho. E mais perguntas, mais perguntas sempre. O que seria de mim se não escrevesse, povoado pelos meus cães negros? Agora, e até começar o livro, não cessam de rondar-me: sinto-lhes a respiração, o cheiro, a baba. Sinto-os roçarem-me. Vejo-lhes as órbitas amarelas, os dentes. Os corpos grandes, grossos. Trotam-me em torno, avançam, recuam, não me mordem ainda. Estiveram na minha cama de hospital, estão aqui agora. Tensos, à espera. Sei perfeitamente o que querem. Uma caixa com o meu primo, na capela mortuária, as árvores, o cafezito onde bebi uma água. O dono reconheceu-me

- O senhor é o Tal e Tal?

e o Tal e Tal com o perfil do pai na ideia, a lembrança dele a subir as escadas duas a duas. Depois fui para Inglaterra encontrar-me com George Steiner. Tem o piano que pertenceu a Darwin e uma data de tabuleiros de xadrez.

- É uma honra muito grande recebê-lo

insistia ele, enquanto os meus cães negros farejavam os cantos. Falámos sobre a culpa, sobre a importância da capacidade de perdoar.

- O que você escreve está cheio de perdão, como em Tchecov

mas não lhe respondi que não me perdoo a mim, enquanto na minha memória ecoava um verso de Camões

E o vivo e puro amor de que sou feito

e toda a glosa a Aristóteles no final do soneto, acerca da matéria e da forma. Que forma tem o meu primo hoje, que nunca, penso eu, andou a cirandar em Aristóteles? A quarenta metros do cafezito morou um amigo do Tal e Tal e eu com saudades dele. Claro que me recordava das árvores mas pareciam-me mais pequenas nessa época. Poisa nem que seja um dedo no meu ombro, pá, tem paciência. Estou tão necessitado de um dedo no ombro.

António Lobo Antunes
9:00 Quinta, 10 de Novembro de 2011

O Encontro

Que raio de ideia, ter-te marcado encontro neste sítio, porque diabo não escolhi uma pastelaria, um café, um centro comercial, tudo menos uma esquina que me disseste ser perto do teu emprego para acrescentares, logo a seguir, juras de pontualidade, e eu a acreditar em ti

Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze taxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover. Começou a chover e não há um toldo onde abrigar-me, eu que não trouxe guarda-chuva, o céu sem nuvens quando saí de casa, previsão de céu sem nuvens para hoje, os camelos da meteorologia deviam ser fuzilados mas infelizmente não estamos em Cuba nem há maneira da máfia napolitana tomar conta da miséria deste país. E, já agora, da minha miséria, feito parvo à tua espera. Encosto-me ao prédio na esperança de me molhar menos mas as varandas, para além de pouco salientes, pingam-me gotas enormes na nuca: amanhã, está-se mesmo a ver, agonizo na cama a aspirinas, de termómetro debaixo do braço e a caixa dos lenços de papel quase vazia. Contar mais corcundas inútil, todos eles em casa, sequinhos, colados às janelas, a verem-me. Chegarás antes de acabar a chuva?

Que raio de ideia, ter-te marcado encontro neste sítio, porque diabo não escolhi uma pastelaria, um café, um centro comercial, tudo menos uma esquina que me disseste ser perto do teu emprego para acrescentares, logo a seguir, juras de pontualidade, e eu a acreditar em ti, combinámos às cinco horas e, desde a um quarto para as cinco, que estou aqui plantado, ora num pé ora no outro, a confundir-te com todas as pessoas que se aproximam, uma mulher ao longe e eu, de imediato

- É ela

de coração aos baldões e mãos suadas, a mulher sempre outra mulher, nem me olha, aliás espanta-me que me tenhas olhado, nunca tive grande sucesso, nunca se apaixonaram por mim, pode ser que uma vez mas tenho dúvidas, chamava-se Carla, trabalhava na recepção de um hotel, o olho esquerdo fugia-lhe e o olho esquerdo afastou-me, pensava que as estrábicas chorassem de maneira diferente mas não, ainda me escreveu, não respondi, ainda me telefonou, não atendi e depois a cidade comeu-a, julgo que continua em qualquer lado, engolida pelo hotel, engolida pelo prédio onde mora com a mãe, engolida pelos anos que devoram tudo, a começar pelo esquecimento. E, depois, tu. Quer dizer quase não nos conhecemos, ficámos em mesas lado a lado na pizaria, a má criação da empregada uniu-nos, o gosto comum pelas lasanhas vegetarianas tornou-se uma ponte entre nós, a falha no verniz do mindinho enterneceu-me, marcámos este encontro para um cinema, despedimo-nos com um passou bem demorado que me soube a beijo, afastaste-te sem olhar para trás, depois de me teres consentido pagar a tua lasanha, cada qual com o seu porta-moedas na mão, guardaste-o, a contragosto, na carteira

- Da próxima sou eu que pago e não admito recusas

a próxima vez que é hoje, espero que jantar depois do cinema, espero que segurar a tua mão que hesita, tiro, não tiro, acaba por ficar, espero que um joelho, espero que uma bochecha no meu ombro, um primeiro beijo tímido, um segundo que se abre em corola, um suspirozinho, dedos exploradores no automóvel, cautelosos, medidos, arrumei o apartamento, deixei a cama feita, comprovei que não era grande espingarda a fazer camas, o lava-loiças limpo, os cinzeiros limpos, o jornal de ontem no balde, música suave, pronta a funcionar, na aparelhagem, basta carregar num botão e caem-te violinos em cima, um amigo meu garante que os violinos amolecem as mulheres, acrescenta

- Não me perguntes porquê mas amolecem

e não tenho motivos para não acreditar no rapaz, três casamentos, três divórcios, experiência, a chuva parece abrandar e eu feito um pinto, se calhar esqueceste-te, se calhar não pensaste mais nisso, nem o teu nome sei, para ser sincero não me lembro muito bem como és, altura média, acho eu, cabelo castanho, acho eu, ou com madeixas, não seria capaz de esclarecer, quem me garante que não te cruzaste já comigo, enquanto eu somava os sete homens carecas, sem te lembrares de como sou igualmente, quem me garante que não estavas à espera que eu sorrisse para me falares e, como não sorri, decidiste, desiludida

- Espera outra pessoa, vou-me embora

e não esperava outra pessoa, que pessoa, esperava-te a ti, espero-te a ti, de maneira que, agora que a chuva parou, vou recomeçar a contar de um a cem e de cem a um, recomeçar a contar automóveis pretos, taxis vazios, homens carecas, mulheres loiras, ambulâncias e corcundas, com um gosto de lasanha vegetariana na boca, seguro de que não terei que me ir embora porque vais chegar.

António Lobo Antunes
8:43 Quinta, 27 de Outubro de 2011

O grito

Na realidade a minha mãe nem dias piores nem dias melhores, sempre na mesma. Há quatro anos deu-lhe o ataque em maio e ficou assim até hoje, inalterável. Não sei se gosto dela: sei que tenho de tomar conta das coisas. Se calhar gosto, não penso nisso. Não tenho ocasião para pensar e, se penso, é no vizinho de pijama

Às vezes, a meio da noite, um grito. Há alturas em que penso que sou eu quem grita, embora não grite nunca: sempre calei os gritos todos em mim. A minha mãe tem oitenta e nove anos: está lá dentro, na cama. Não sai da cama. Dou-lhe o almoço e o jantar, mudo-lhe a fralda, consigo que engula os comprimidos. Quase não fala: uma palavra de vez em quando, um gemido, os olhos sempre muito abertos que não me fixam nunca. Gostava que me fixasse e dissesse o meu nome. As pernas dela muito magras agora, os braços muito magros mas a cara redonda. Ficou assim depois de eu me reformar, há quatro anos. Antes de me reformar tínhamos uma empregada duas tardes por semana. Depois de me reformar sou eu que faço as limpezas. E, tirando o canalizador, derivado a um problema no sifão do lavatório, não entra ninguém cá em casa.

O apartamento não tem vista: quer dizer, do outro lado das janelas os prédios em frente, a mercearia, o café. No verão o dono do café põe duas ou três mesas no passeio. Sento-me ali um bocadinho ao regressar do supermercado, peço uma água, fico a ver os pombos. Há um vizinho que lhes dá pão, a esfarelar migalhas da varanda. Reformado como eu, sozinho como eu, quase sempre de pijama. Volta e meia sorri-me e eu sorrio-lhe. Depois sentimo-nos ambos envergonhados. Os meus pais não levavam a bem que eu sorrisse aos homens e não posso deixar de dar-lhes razão, é um sinal de atrevimento. Alugaram este quinto andar ao casarem-se. O senhorio faleceu há séculos, é o filho quem passa o recibo da renda. Conheço desde pequena quase todas as pessoas do prédio, excepto os hóspedes do músico do segundo esquerdo, sempre a mudarem. O músico tocava clarinete antes dos pulmões perderem o fôlego. Segundo os meus pais era um artista a soprar na banda da Polícia e a farda, ainda me lembro dela, tornava-o mais alto. Deve guardá-la no armário na esperança de a tornar a pôr no caso dos pulmões recuperarem. Dá-me a impressão que uma das hóspedes dele recebe cavalheiros à noite. Não afirmo porque não estou segura. Mas, no caso de a minha impressão ser correcta, não me parece uma coisa acertada. A hóspede pinta o cabelo de loiro, pinta as unhas dos pés. Mais de uma ocasião ocupou a mesa ao lado da minha na esplanadazita do café, de cigarro aceso e revista. Se a minha mãe fosse como era dantes chamava-lhe um mau exemplo. Se o meu pai cá estivesse não lhe chamava nada, arremelgava-se e a minha mãe, logo

- Só dás maus exemplos à tua filha

pronta a benzer-se. Sendo a minha mãe como era nem percebo como nasci.

Dá muito trabalho tomar conta de uma pessoa nestas condições. As papas, as fraldas, mudar-lhe a posição na cama a fim de evitar feridas nas costas, esperar horas no Posto pelo médico que me passa as receitas a perguntar

- Como vai ela?

e eu

- Uns dias melhor outros dias pior

para fazer conversa. Na realidade a minha mãe nem dias piores nem dias melhores, sempre na mesma. Há quatro anos deu-lhe o ataque em maio e ficou assim até hoje, inalterável. Não sei se gosto dela: sei que tenho de tomar conta das coisas. Se calhar gosto, não penso nisso. Não tenho ocasião para pensar e, se penso, é no vizinho de pijama. A mulher dele não morreu, fartou-se e foi-se embora. Tanto quanto suponho não me fartava. O vizinho usava risca ao meio: agora não usa risca nenhuma, é careca. Os senhores carecas parecem-me distintos, bonitos, sobretudo quando a pele da cabeça brilha. Não se me dava passar a mão numa cabeça que brilha, lisinha, suave. Imagino-me na sala dele, a beijar-lhe a pele do cocuruto, mas imagino baixinho, não vá a minha mãe dar por isso: quem me garante que não se levanta da cama, indignada

- Herdaste os maus exemplos do teu pai.

Se calhar herdei. E o meu pai careca igualmente, com um par de mechas grisalhas por cima das orelhas, sempre com o jornal. De longe em longe suspirava

- A vida é um frete

e regressava às notícias. Ignoro se a vida é um frete, não empreendo acerca disso embora à noite, ao lado da minha mãe, se me afigure que sim. Mas talvez cheguem horas melhores. Talvez consiga gritar enquanto caio da janela e o vizinho de pijama não há-de dar por isso.

António Lobo Antunes
8:38 Quinta, 13 de Outubro de 2011

Croniquinha

Não abandono os sítios de que me fui embora, coloquei a alma, escondida, sob cada objecto. Continuo em Veneza com sete anos, em Berlim com quarenta, não saí do lago do Jardim Zoológico, onde passeava, com o meu avô, num barco com pedais. Lembro-me dos patos, dos cisnes, de ser tão feliz, lembro-me de tudo. Não esqueci nada, não vou esquecer nada

Moro num apartamento que escolhi, comprei, está em meu nome, o único bem no mundo, não contando o automóvel, que está em meu nome, porque nunca quis ter coisas que me pertencessem e, no entanto, não me abandona a impressão de morar num hotel, numa espécie de suite com alguns quartos. Faço cerimónia, não ligo aos móveis, não ligo aos objectos, escrevo aqui como fui escrevendo em tantos outros sítios, em Portugal e no estrangeiro, e não me sinto em casa, dá-me ideia de habitar, por empréstimo, o lugar de um outro que não conheço e que, a qualquer momento, vai entrar e mandar-me embora, falta-me o sentido de propriedade do que quer que seja, onde eu gostava mesmo de viver era num comboio, prestes a viajar, que não partisse nunca. Os comboios sempre me fizeram sonhar. Os comboios? Quase tudo me faz sonhar, que esquisito. Às vezes parece-me que sou uma nuvem com raízes, sempre a partir e a ficar. Não abandono os sítios de que me fui embora, coloquei a alma, escondida, sob cada objecto. Continuo em Veneza com sete anos, em Berlim com quarenta, não saí do lago do Jardim Zoológico, onde passeava, com o meu avô, num barco com pedais. Lembro-me dos patos, dos cisnes, de ser tão feliz, lembro-me de tudo. Não esqueci nada, não vou esquecer nada. Sofrimentos de amor aos doze anos, os primeiros versos, um pardal de pata quebrada que o sapateiro consertou com uma tala de cana. Certos perfumes nos elevadores vazios, as conversas, cheias de palavras desconhecidas, dos adultos, ajudar à missa na igreja gelada, a dor dos outros, que invariavelmente me aflige, o sacristão coxo, de Nelas, a pedalar uma trotineta que não existia. O sorriso raro do meu pai, as duas empregadas da minha avó a beijarem-se. Vidas pequeninas que eu não compreendia. A profunda solidão das pessoas. O meu espanto diante das criaturas amargas. Entendo a tristeza, entendo o desejo de suicídio, não entendo a amargura, o azedume, a avidez. Nem a antipatia, nem a inveja, nem a vaidade. Hoje passei pela igreja de Santo António onde, em criança, entrei tanta vez. Acho que ele me salvou das três doenças difíceis que tive. Com seis anos a minha palma no seu túmulo, em Pádua. Há-de estar lá, bem impressa, a marca destes dedos. Intermináveis discursos diante de quadros e estátuas, que me aborreciam de morte. Entre parênteses também não entendo a morte e, quanto à vida, será que a entendo de facto? Ou à minha adolescência, veemente e confusa? O desejo informulado, a descoberta atónita do sexo. Que mistério, à luz da madrugada, o corpo que se transforma e cresce e, depois, a minha cara no lençol como num sudário. Agora veio-me à cabeça um amigo meu, Frei Bento Domingues. Um dia disse-lhe

- Estás sempre tão alegre

ele respondeu

- O que eu podia eu ser senão alegre?

e não conheço mais nenhuma pessoa em que até os óculos riem, não conheço ninguém com tanta esperança, tanta curiosidade infantil, tanta fé de olhos abertos, tanta tolerância. Raios o partam. Comecei pela casa mas aquela que sinto minha fica longe e já não nos pertence. Não me atrevo a entrar, olho-a de longe, quase a medo, e é tudo. Passo na estrada, penso

- Ali era a casa

corrijo

- Ali é a casa

e fujo. Quase tudo mudou nas redondezas, aliás, quase toda a gente faleceu. O casaco do meu outro avô, cheio de palitos. As duas lareiras da sala. Não era uma casa de ricos, recordo-me de imensas chávenas com a asa quebrada, recordo-me da mesa de pingue-pongue no andar de baixo e dos sons repetidos, cada vez mais rápidos, cada vez mais ténues, da bola ao cair no chão de pedra. Da vinha. Das vindimas. Olha, lá estão as empregadas a beijarem-se de novo e eu, parvo, sem entender. Beijos como no cinema, cochichos ternos. Fugi também, ocultando a minha perplexidade na trepadeira, cheia de insectos e lagartixas.

Afastava-me, com receio dos bichos, até ao muro ao lado da cancela. A estrada deserta, nem uma velha num burro, nem uma pessoa com um atado de lenha à cabeça. Comecei a escutar um barulho de guizos ao longe, um barulho de rodas de carroça, um barulho de vozes. A estrada tornava-se negra, vibrante, cheia de ecos que cresciam, eixos mal oleados, pranchas desconjuntadas, o que se me afigurava um canto. E, então, passaram os ciganos.

António Lobo Antunes
8:56 Quinta, 22 de Setembro de 2011

Uma crónica ou lá o que é

Não escrevi nenhum livro sobre a guerra, limitei-me a intercalar episódios laterais nos primeiros textos publicados, para estruturar melhor os capítulos e, talvez também, para, em certo sentido, me libertar de episódios que me embaciavam a memória, libertando-me deles como de um vómito

Em Almeirim, no almoço anual com os meus camaradas. Ouvir falar de África o tempo inteiro.

Tratam-me sempre tão bem! Às vezes tenho dificuldade em distinguir, nos homens de hoje, os rapazinhos de então. Depois um sorriso, um trejeito, qualquer coisa para além das feições e reconheço-os.

Trazem as mulheres, os filhos, mostram a fotografia dos netos. Há quem venha do estrangeiro, de propósito. Há quem ainda ponha a boina na cabeça.

Quase todos continuam lá, pelo menos uma parte deles continua lá. Os mortos connosco. Falo pouco, como sempre, oiço-os. Vivi tudo aquilo que eles continuam a viver e que, para mim, é uma espécie de sonho. Farrapos de lembranças, coisas que me dizem que fiz e mal recordo. Ao lembrarem-mas avivam-se um bocadinho, desbotam-se de novo. Publicaram um livro com as cartas que escrevi durante aquilo: não o li nunca. Não sou capaz. Não é que queira esquecer, é que foi outro que por lá andou. Foi outro e fui eu, que difícil explicar isto. Não escrevi nenhum livro sobre a guerra, limitei-me a intercalar episódios laterais nos primeiros textos publicados, para estruturar melhor os capítulos e, talvez também, para, em certo sentido, me libertar de episódios que me embaciavam a memória, libertando-me deles como de um vómito.

Uma vez liberto deles pensei Agora posso começar e, então, comecei. Tanto tempo até encontrar o meu tom, o meu modo, uma forma que não devesse nada a ninguém, e em que as vozes alheias não entrassem na minha. Em Almeirim longos abraços enternecidos, saudades, quem sou eu? Sei e não sei, fujo de mim, regresso, persigo-me desisto. Sou muitos. Deixei muitos pelo caminho e continuo a ser muitos. Um dia tudo isto pára. E metem um só no caixão. Fiz o que pude, com a força que tinha, e dói-me que imensos erros, patetices, asneiras. Sofri que me fartei. Algumas alegrias no meio disto, claro, alguns momentos quase perfeitos na eterna guerra civil dos meus dias. É isso que me confunde mais: porquê esta violência interior, estes excessos, esta permanente, desesperada busca? Trocava-me por qualquer um, preferia ser um bicho. Lembro-me de uma senhora alentejana na consulta, com uma doença horrível, ao perguntar-lhe como se sentia Só fezes, só fezes bebendo até às fezes o cálice da amargura.

Trazia-me miminhos, ovos, figos, prendas de nada que eram imenso. Há semanas fui ao Porto assinar na Feira, e a ternura e a delicadeza dos leitores comoveu-me. Uma fila de gente que não acabava, pessoas com sacos cheios de livros. Mereço isto, a atenção, o carinho para com um sujeito que lhes dá palavras em páginas coladas no interior de uma capa? Tenho dúzias de defeitos de que me envergonho mas, ao escrever, sou inteiramente honesto. Valha-me isso. Greene dizia que um escritor é um fulano sentado a uma mesa, cercado de criaturas que não existem. Não acho assim: sou um fulano sentado a uma mesa recebendo frases que não entende de onde lhe vêm e se colocam mais ou menos por ordem, apesar dele. A seguir vem o trabalho pesado das correcções sucessivas, cortes, ofício de costura, achar outro modo, horas numa vírgula.

Uma sina difícil e esquisita, que me acompanha desde que o início, e me condiciona a vida. Em Almeirim com a tropa, emboscadas, flagelações, minas, álbuns e álbuns de fotografias daquilo.

Não tenho nenhuma, não quero ter nenhuma. Bastam-me as mangueiras de Marimba que me perseguirão para sempre, cheias de morcegos. Uma longa fila de mangueiras enormes, os crocodilos do rio Cambo, um leão que, no Leste, passou rente à viatura: demasiada tralha já, de que me tento livrar sacudindo o lombo da alma. Em parte sou capaz, em parte não sou. E as mangueiras persistem. Até ao fim hão-de morar comigo? Almeirim uma terra bonita. Não me importava de morar lá, conhecer as pessoas. Não me importava de morar fosse onde fosse, como não me importo de morar aqui, éme indiferente o lugar, desde que haja esferográfica, papel, uma cadeira e uma mesa. O almoço dos camaradas num restaurante enorme, com um casamento ao lado. Acho que um casamento, não sei. Vinha-se cá fora fumar, com o sol a pisar-nos. Assinei um livro ao dono do restaurante, antes de me vir embora. Eles continuaram lá. Gente de quem eu gosto, com quem vivi muitos meses. Nem os mortos faltaram: estávamos todos, os mortos nunca faltam.

São os primeiros a chegar e os últimos a deixarem-nos. E aqui estão eles comigo, apesar de eu sozinho.

António Lobo Antunes
8:35 Quinta, 25 de Agosto de 2011
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