De todas as classes profissionais, nenhuma terá tanta razão de queixa dos jornalistas como os próprios jornalistas. Os jornalistas podem desconfiar dos políticos, desprezar os empresários, maldizer os artistas - mas quem eles detestam mesmo são os outros jornalistas. É uma atitude que, sendo em geral sensata e justificada (tenho vindo a abominar gradualmente o conceito de jornalista e o ser mais ou menos humano que, pontualmente, o corporiza), resvala com frequência para o traconismo (sim, sim: o traconismo). É uma espécie de corporativismo invertido.
Esta semana, Sócrates foi à ópera e o público vaiou-o. E o primeiro-ministro nem sequer cantou. Mas, como se apresentou com a namorada, os jornais optaram, quase todos, pelo título: "Sócrates e Fernanda Câncio vaiados no CCB". Só um observador particularmente subtil é capaz de compreender que, quando um grupo de cidadãos vaia o primeiro-ministro, está também a apupar quem o acompanha.
Um jornalista menos hábil na hermenêutica das vaias não teria percebido que, naquele momento, os apupos se dirigiam, aparentemente em partes iguais, a José Sócrates e à namorada. No entanto, a fazer fé nos jornais, Fernanda Câncio foi vaiada por afinidade.
Eu estudei (o mais desinteressadamente possível, é certo) comunicação social. Mas, por falta de atenção ou talento, não saí da universidade preparado para interpretar uma vaia com este rigor. Duvido que, se Sócrates tivesse convidado o Dalai Lama para assistir à ópera, os jornais tivessem relatado que Sócrates e o Dalai Lama haviam sido vaiados no CCB. Se Manuela Ferreira Leite fosse primeira-ministra e o público a vaiasse numa cerimónia pública, não sei se a comunicação social diria que Ferreira Leite e o marido tinham sido vaiados. Uma hipótese provável - sobretudo para quem conhece Fernanda Câncio -, era que o público estivesse a vaiar o primeiro-ministro e a assobiar a Fernanda Câncio. Mas, neste caso, o ouvido dos jornalistas soube detectar que o que se ouvia eram apupos, e dirigiam-se tanto a Sócrates como à namorada.
Fernanda Câncio não está, evidentemente, isenta de culpas. Se, mal entrou no CCB, tivesse vaiado também o primeiro-ministro, os títulos poderiam ter sido diferentes. O casal seria vaiado na mesma, mas os jornais teriam sido forçados a registar que, apesar de tudo, Sócrates tinha sido mais vaiado do que Fernanda Câncio.
Por fim, o público presente na sala também não sai bem deste episódio. Sócrates chegou atrasado à ópera porque ficou à espera do primeiro-ministro de Cabo Verde. Com tantos e tão bons motivos para apupar o chefe do Governo, vaiar José Sócrates por ter aguardado pelo seu homólogo cabo-verdiano é como assobiar Carlos Queirós por não fazer a barba.